Santa Catarina é Negra: Marcha da Negritude Catarinense

Sim, teve Marcha!

A cada quilômetro avançado a ansiedade  aumentava, chegamos em Florianópolis com chuva, mas tínhamos a certeza que recuar ou desistir da Marcha não era uma opção.

Ver as pessoas chegando com sorriso no rosto, mesmo em baixo de chuva, ver a empatia estampada nos olhos de cada um que ali se fazia presente e, principalmente, o desejo de marcharmos juntos para mostrarmos para Santa Catarina e o Brasil que nós existimos e resistimos.

A chuva deu uma trégua e ao som da apresentação do Maracatu Arrasta Ilha, a concentração  foi tomando conta da escadaria da Igreja Nossa Senhora do Rosário – pra mim um dos momentos mais especiais da Marcha da Negritude Catarinense -.

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Percorremos as principais ruas do centro de Florianópolis  em busca do reconhecimento do valor do povo negro na história do estado, pelo fim do preconceito, por politicas próprias para a população negra. O poeta Cruz e Sousa  e  ex- Ministra da Secretaria de Politicas Públicas da Igualdade Racial do Brasil, Luíza Helena Bairros, falecida no dia 12 de julho, foram lembrados.

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Não consegui fazer nenhum registro fotográfico de uma senhora muito simpática que nos acompanhou do meio até o fim da Marcha, ela havia saído de casa para ir ao mercado e ao ver a passeata, ficou tão maravilhada que decidiu seguir junto, naquele momento eu tive a certeza que parte dos nossos objetivos haviam sido atingidos – estávamos sendo vistos – vi muitas pessoas acenando admiradas, outras e emocionadas e não vou negar que algumas pareciam estar perplexas com tal movimentos – mas para essas pessoas voltamos a repetir, nós existimos e resistimos!

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Fica aqui o nosso agradecimento e parabéns aos idealizadores e organizadores da Marcha que não mediram esforços para concretizar e viabilizar esse momento histórico no estado de Santa Catarina, que essa seja a primeira de muitas!

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#SomosTodosMaJu

Quando aconteceu o atentado no jornal francês Charlie Hebdo, muitos se comoveram e utilizaram a hashtag “Je suis Charlie” (Eu sou Charlie) em apoio às vitimas. Não me manifestei porque, apesar de não concordar com a violência, seja da forma que for, não concordo com nenhum tipo de artista que se esconde atrás do título de humorista pra ofender religiões, raças, credos, etc. Depois disso, muitas outras causas comoveram o público, e vira e mexe vemos pessoas “sendo” outra para apoiar algum ato que julgamos incorreto. Muita coisa eu acho desnecessária, e acabo não “apoiando”. Eu não entrei nem na onda do “Somos todos macacos”, primeiro porque se eu acho preconceituoso chamar alguém de macaco, não vou me intitular como um; segundo porque tinha muito mais marketing do que verdade naquela “campanha”.

Mas agora eu achei que realmente seria uma causa justa. Não por ser uma “funcionária” da Rede Globo. Não por ser com alguém que ganhou tanta visibilidade recentemente. Não por estar recebendo o apoio de muitos outros famosos. Mas porque onde muitos dizem que não existe racismo no Brasil, essa moça acabou, sem querer, esfregando na cara da sociedade brasileira quão racistas – e hipócritas – eles são.

 

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Negro é bom quando está quieto no seu canto, quando não incomoda, quando não reivindica os seus direitos. Calado!

Mas se vemos um negro se destacando seja em qualquer área, logo os “seres superiores” começam a se sentir incomodados. A competência incomoda, a beleza, a cultura, tudo que nos foi roubado dói na consciência e o preconceito é o escudo que eles usam pra se defender e nos atacar.

Este é só mais um episódio do racismo escancarado no Brasil. Talvez seja mais um que fique impune, talvez não. A única coisa que eu tenho certeza é que a a “pessoa” que se dá ao trabalho de ofender outra (seja por qualquer motivo) se torna tão inferior quanto ela julga a pessoa ofendida.

Fiquei feliz em ver que no mesmo post em que a Maria Julia Coutinho recebeu tantas ofensas, haviam muito mais elogios – veja aqui. Sinal de quê ainda há esperança para o Brasil, e para a internet. Logo após o ocorrido, o Willian e a Renata também se manifestaram em um vídeo.

 

 

Você não precisa ser negro pra ser contra o racismo!

E apenas pra complementar, racismo disfarçado de piada, continua sendo racismo.

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Racismo na escola: A turma que não “se adaptou” a ter uma aluna negra

por segunda-feira,13 abril, 2015 0 , , 0

A notícia começava da seguinte forma: Daquelas coisas que você lê no Facebook e não acredita que possa ser verdade, diante do tamanho absurdo…

E foi exatamente isso que pensei no momento; não pode ser verdade, deve ser mais um desses link com vírus, mas para a minha surpresa,  a notícia era tão real quanto absurda.

A matéria contava a história da a história da pequena Lorena de apenas 12 anos, que foi convidada a mudar de turma pois os seus colegas de classes a ridicularizavam por ser negra.

A escola chegou a ligar para a mãe da menina avisando que seria feito a troca de turma e como justificativa disseram que a turma não se adaptou à ela. Parece absurdo de mais para ser verdade…

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A mãe ainda recebeu uma mensagem pelo Whatsapp da menina que dizia: “olha só o que sofro”. e junto a gravação do colegas com ofensas do tipo:  “Sua preta, testa de bater bife do cara&%@”

Isso não é o tipo de coisa que você lê e logo esquece, fiquei tão horrorizada e me coloquei no lugar da Lorena, porque assim como ela muitas vezes eu fui e ainda sou a única aluna negra da classe e se as pessoas “não se adaptassem” a minha cor, meu cabelo, peso e altura, quanta coisa eu teria que abrir mão e o que eu seria hoje?!

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Me assusta ver que ainda nos dias de hoje, ainda existem adolescentes com pensamentos tão preconceituosos, retrógrados e ignorantes como esses, suponho que assim como a educação é algo que venha de casa, tal comportamento discriminatório, já aflorado desde tão cedo, não possa vir de outro lugar.

Devemos refletir a importância de elucidar o racismo para as crianças negras e também enriquecê-las com a nossa cultura, para que elas estejam preparadas para enfrentar esse tipo de situação – Infelizmente, nossas crianças não estão a salvo de passar por situações como essa –  temos muitas Lorenas no nosso Brasil, que enfrentam o preconceito diariamente, seja na escola, faculdade, local de trabalho e nas ruas pelo simples fato de ter a pele preta.

A sociedade hipócrita, que afirma veementemente não haver racismo em nosso país, tem criado na sua intimidade, seres arrogantes e prepotentes, os ataques sofridos por nós negros, estão se tornando cada vez mais constantes, talvez pelo fato de estarmos cada vez mais esclarecidos e combativos, e isso assusta muito a podre “elite branca”. Desejo à Lorena que ela se fortaleça cada vez mais contra pessoas como essas e que tenha cada vez mais orgulho de sua origem, de sua cor, de seu cabelo… Você é linda, nós somos lindas!

Leia a matéria completa no portal Geledés

sign-Dai

 

Como você traduziria o preconceito?

por sexta-feira,20 março, 2015 0 , 0

“O que você faria se uma pessoa negra pedisse para traduzir uma publicação no Facebook dele em um idioma que ele não domina, e descobrisse que o conteúdo era racista e com agressões contra ele?”

Este post não é para nós, negras, mas sim para todas e todos que por acaso chegarem aqui.

Diversos estudos e experiências já foram realizados sobre racismo e seus agentes, e isso não é novidade. Mas as formas como institutos tem encontrado para mostrar o quão ignorante é o racismo sempre é uma surpresa, na maioria das vezes agradável.

A Lituânia é um país conhecido por seus atos racistas e seu povo nada receptivo. Uma agência local decidiu fazer uma experiência, chamando algumas pessoas para um teste fake, onde elas, em um determinado momento seriam solicitadas a traduzir uma mensagem para um homem negro, sem saber do conteúdo da mensagem e nem que se tratava de uma experiência. A reação das pessoas é emocionante, assista:

O que me tocou nesta experiência, é que de alguma forma as pessoas se colocaram no lugar do homem que estava sofrendo o preconceito, e puderam sentir um pouco da realidade diária dos negros pelo mundo todo.

E agora eu pergunto: o que VOCÊ faria?

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Neguinha do espanador X Queens of Africa: O brinquedo como forma de representatividade da criança negra

Na última semana mais um fato envolvendo uma denúncia de racismo tomou conta das redes sociais e mídias jornalísticas, dessa vez não foi uma agressão a algum atleta ou personalidade negra, mas sim uma boneca, batizada com o nome de “Neguinha do espanador”… Vamos ao fato…

Em uma parceria do MuBe (Museu Brasileiro de Esculturas) com a Estrela (empresa de  brinquedos) foram enviadas quinhentas bonecas “em branco” para que artistas de diversos lugares do mundo as customizassem e batizassem da forma que desejassem, para posteriormente montar uma exposição que percorrerá alguns lugares do país.

A polêmica está na representação de uma das bonecas feita pela artista plástica Rita Caruso, a boneca, negra, está vestida com plumas e segurando na mão um espanador. Assim que a exposição foi aberta em um shopping center de São Paulo, alguns dos expectadores passaram a publicar mensagens de repúdio não só à boneca, mas também a todo o estigma por trás dessa representação ainda recorrente da mulher negra.

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Confesso que tal representação também me incomodou, não só pelo racismo velado e disfarçado de boas intenções, muito praticado em nosso país, mas muito mais pelo reflexo disso nas crianças negras, que não se vêem representadas nas propagandas, nas novelas e nos brinquedos que consomem e como  mãe de duas meninas pequenas posso certificar que a essa falta de representação, afeta a autoestima de nossas crianças, fazendo muitas vezes com que elas não se aceitem da forma como são, já que tudo ao se redor as fazem crer que a representação do belo, está ligada ao cabelo loiro e olhos claros, e sinceramente criar uma boneca com um nome, ao meu ver pejorativo, além de reafirmar um estigma de que as mulheres negras só atuam em serviços subalternos, não fortalece em nada para a construção de uma representatividade positiva.

É visto a olhos nus a ascensão da mulher negra na sociedade, atualmente somos professoras, médicas, advogadas, etc, mas por que insistem em nos representar apenas como empregadas domésticas? Não é demérito algum ser empregada doméstica, como já disse aqui anteriormente, sou filha de uma empregada doméstica e tenho muito orgulho de minha mãe, mas consigo mensurar as mudanças existentes em nossa sociedade ao decorrer dos anos, fazendo com que muitas de nós pudéssemos galgar oportunidades melhores e é essa representação da realidade atual que desejamos.

Na contramão do que estamos presenciando em nosso país, na Nigéria o empresário Taofick Okoya , resolveu criar uma boneca que representasse sua sobrinha, a quem queria presentear, segundo Taofick, mesmo no país com a maior população negra do mundo, era difícil encontrar bonecas que se parecessem com as crianças nigerianas, por conta disso, criou bonecas com a cor e trajes típicos africanos, para que as crianças de seu país aprendessem a se aceitar e valorizar seus traços e costumes. Apesar da resistência inicial, atualmente a coleção de bonecas denominadas de Queens of Africa (Rainhas da África) ultrapassou a Boneca Barbie em vendas na Nigéria.

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Atitudes como a do empresário nigeriano, são necessárias nos quatro cantos do planeta e aqui em nosso país não é diferente, é preciso mostrar para nossas crianças o quão belas elas são e de como a nossa cor, os nossos traços marcantes e a nossa cultura são relevantes dentro dessa sociedade que muitas vezes tenta nos negar a ascensão e diminuir o orgulho que temos de ser assim, negros, belos e fortes. Quero que as minhas filhas se vejam nas propagandas infantis, que possam encontrar com mais facilidade bonecas negras, sem estereótipos, para que elas possam entender o quanto somos lindas, inteligentes e capazes e que mesmo com todo o racismo e machismo que ainda nos oprime, elas poderão ser o que quiserem na vida e não apenas a neguinha do espanador.

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